O que segura e o que puxa a retomada da economia

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No acidentado caminho da reação da economia brasileira, setores como indústria e comércio já contornaram a curva que os fez trocar de direção e lentamente tentam engatar uma marcha mais acelerada, enquanto segmentos de peso como serviços e construção civil ainda freiam retomada mais robusta. Atingidas pelos primeiros sinais da recessão que se aproximava em 2014, as fábricas iniciaram a reação no final do ano passado e, no acumulado de 2017 até agosto, o volume de produção tem alta de 1,5%. Novembro marcou a virada, nota o gerente de Pesquisa Industrial Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), André Macedo.

É um movimento lento e gradual, mas ainda estamos 17,8% atrás do patamar recorde de julho de 2013. Mesmo assim, nos últimos 10 meses, há oito com taxas positivas e somente dois com queda, observa Macedo. Beneficiado por queda da inflação, corte do juro, estabilização do desemprego e, em parte, pela liberação do dinheiro de contas inativas do FGTS, o comércio teve seu ponto de inflexão em abril, também segundo o IBGE.

Foi o primeiro resultado positivo após 24 meses consecutivos de retração na comparação com igual período do ano anterior. Agora, a alta nas vendas é de 0,7% no ano até agosto e, no varejo ampliado, que inclui o comércio de veículos, 1,9%. Não por acaso, os dados do PIB mostraram que, no segundo trimestre, foi o consumo das famílias, com alta de 1,2%, que ajudou a economia brasileira a avançar 0,2%. Com peso de 70% no PIB, o setor de serviços ainda não engrenou. No ano, a queda até julho é de 4%, de acordo com o acompanhamento mensal do IBGE. Grande empregadora, a construção civil segue em marcha a ré.

Pelos dados do PIB, amarga tombo de 6,6% no nível de atividade no primeiro semestre. Sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra ao menos que, nos últimos meses, a retração tem sido menor. Determinante para uma retomada sustentável da economia, o investimento é outro indicador que, por enquanto, não reage. No ano, a queda é de 5,1%.
Para o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) Paulo Picchetti, integrante do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos, o marco do início da reação da economia brasileira foi o começo do período de corte da Selic pelo Banco Central (BC), em outubro do ano passado.

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De lá para cá, o juro básico da economia caiu de 14,25% para 8,25% ao ano. Além da desaceleração da inflação já em curso à época, o diferencial para esperar que a taxa permaneça baixa por um longo tempo é que viria acompanhada do reequilíbrio das finanças públicas, especialmente alicerçado na reforma da Previdência. Com a fragilidade política do governo Michel Temer e as incertezas relacionadas à eleição de 2018, esse é um ponto a ser monitorado, alerta o economista.

Picchetti ressalta ainda que, apesar de o mercado de trabalho dar indícios de recuperação, a queda da taxa de desemprego, ainda modesta, está, por enquanto, muito baseada na informalidade, com baixa remuneração. Por isso, seria essencial um outro segmento pisar no acelerador: A próxima reação teria de vir dos serviços – diz Pichetti, acrescentando que a reviravolta do setor poderia elevar a massa salarial de forma mais consistente e dar novo impulso à reaceleração da economia.

Desafio será conseguir crescimento sustentável

Para o economista Fabio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a grande preocupação a partir de agora é elevar a taxa de investimento em relação ao PIB. O ideal para um crescimento sustentável, avalia, seria entre 22% e 23%, enquanto o patamar é hoje de 15%. Bentes observa que, como a retomada da economia será baseada no consumo e o retorno dos investimentos ainda deve demorar, à espera da definição da eleição presidencial do próximo ano, há risco de descasamento entre demanda e capacidade para atendê-la, o que poderia gerar inflação e ameaçar abortar o esperado ciclo duradouro de juro mais baixo no país. O consumo tende a andar em marcha mais acelerada, mas o investimento não vai destravar porque 2018 é ano eleitoral e aí há uma incerteza. Os empresários vão esperar para ver o que vai acontecer, avalia Bentes.

Em linha com os analistas do mercado financeiro consultados pelo Boletim Focus, do BC, o Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou revisão para cima na projeção de crescimento da economia brasileira em 2017. A taxa foi reavaliada de 0,3% para 0,7%. Para 2018, a expectativa foi corrigida de 1,3% para 1,5%. No Focus, o otimismo é ainda maior. Após cinco semanas seguidas de recalibragem para cima nas previsões, a aposta agora é de que o PIB avance 2,43% em 2018.

Sinal do mercado financeiro

Conhecido por antecipar os movimentos da economia, o mercado financeiro mudou de mão no início do ano passado. Em janeiro de 2016, a bolsa chegava a 37 mil pontos e, desde então, subiu 107%, até fechar na sexta-feira em 76,9 mil pontos, novo recorde. O dólar foi no sentido inverso. Após atingir R$ 4,16, iniciou movimento de queda, que chega a 24%. Na sexta, encerrou a R$ 3,14.

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Troca no comando em Brasília

Enquanto a economia real estava longe de se recuperar, os índices de confiança começavam a melhorar. A sondagem da indústria da Fundação Getúlio Vargas (FGV) chegava a abril em 77,5 pontos, maior patamar em um ano. O avanço, entretanto, não era apoiado em fundamentos da economia, mas na expectativa de que uma troca de governo colocaria fim à crise em Brasília e alteraria a política econômica. No mês seguinte, aparecia um sinal semelhante na população. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da FGV avançava 3,5 pontos entre abril e maio, ao passar de 64,4 para 67,9. Novamente, a mudança de humor estava mais atrelada à mudança de comando no Planalto do que na economia real.

Ajuda decisiva do BC

Com inflação sob controle, em outubro do ano passado o Banco Central (BC) voltava a cortar o juro básico da economia. Pela primeira vez em quatro anos,o Comitê de Política Monetária (Copom) reduzia a taxa Selic de 14,25% para 14% ao ano. Hoje, o juro está em 8,25%, e a expectativa do mercado é de que encerre o ano em 7%.

Dragão está sem fogo

Em dezembro de 2016, a inflação em 12 meses pelo IPCA fecha em 6,4%, pela primeira vez em dois anos abaixo do teto da meta do Banco Central, de 6,5% ao ano.Em abril de 2017, chega a 4% no período de 12 meses. Fica em patamar inferior ao centro da meta de 4,5%. Atualmente, em 12 meses, o IPCA está em 2,54%.

Indústria muda de direção

Dados do IBGE mostram que, na média móvel trimestral, a partir de novembro do ano passado a indústria inicia uma recuperação um pouco mais nítida e duradoura. De lá para cá, na comparação com o mês imediatamente anterior, até agosto foram oito meses de alta e apenas dois de queda. Na comparação com igual mês do ano anterior, a estabilização começa em dezembro. Em 2017, na comparação com igual mês de 2016, são seis resultados positivos e apenas duas quedas.

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Enfim, reação no emprego

Em elevação desde 2015, o desemprego chega ao pico de 13,7% no trimestre encerrado em março deste ano e em seguida começou lenta e gradual retração, até chegar a 12,6% no recorte de três meses encerrado em agosto. O porém está na qualidade da ocupação, mais baseada na informalidade do que em postos com carteira assinada.

A vez do comércio

Abril marca a virada do comércio. O IBGE mostra que o volume de vendas no mês cresceu 1,9% em relação a igual período do ano anterior. Foi a primeira vez em que houve melhora nos resultados nesta base de comparação depois de 24 meses. No acumulado do ano até agosto, há alta de 0,7%. No varejo ampliado, que inclui o comércio de veículos, 1,9%. Sinal similar aparece no resultado do PIB do segundo trimestre, quando o resultado positivo do consumo das famílias (1,2%, após nove trimestres consecutivos de queda), ajudou a economia brasileira a avançar 0,2%.

O que falta

Serviço. fundamental no PIB

Setor de maior peso na economia, o serviço ainda tem queda de 4% no ano até julho e de 4,6% em 12 meses. Em julho, o resultado foi negativo tanto em relação a maio (-0,8%) quanto na comparação com o mesmo mês de 2016 (-3,2%). Mostra da recuperação do consumo, os serviços prestados a famílias é subsegmento apresenta melhor desempenho.

O desafios dos investimentos

Um dos pilares para um crescimento mais robusto e duradouro, o investimento – também conhecido como formação bruta de capital fixo (FBCF) – ainda mostra fraqueza. Os dados do PIB do segundo trimestre comprovam. A queda foi de 0,7% em relação ao intervalo entre janeiro e março e de 6,5% ante igual período do ano passado. Nos últimos 15 trimestres, houve apenas duas taxas positivas.

Longo caminho da construção

Sondagem da construção civil da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que o setor segue em retração, mas nos últimos meses as quedas no nível de atividade têm sido cada vez menores, o que indica que também caminha para reação. O índice da entidade ficou em 33,4 pontos em agosto, ainda distante da linha divisória de 50 pontos que separa os terrenos negativo do positivo, mas é três pontos superior a julho e 5,7 acima do mesmo mês de 2016. Pelos dados do PIB, a queda no ano é de 6,6%.

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