Avaliação suspeita; Nada a perder se iguala ao filme “O Poderoso Chefão”

Envolto em polêmicas, 'Nada a Perder' transforma vida de Edir Macedo em novela

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(Foto: Reprodução)

“Vocês querem ir ao cinema?”, abordou-me um homem, com algumas dezenas de ingressos em uma mão e uma dezena de panos na outra. Aparentava ter entre 50 e 60 anos, se a careca não me enganasse.

“Assistir a quê?”, perguntei, já sabendo a resposta.

“Ao filme do bispo”, respondeu. “‘Nada a Perder'”.

Pensei por alguns segundos e aceitei. Depois, perguntei o motivo de estar dando os ingressos.

“Sobraram alguns das igrejas e viemos distribuir aqui”, disse ele. Consegui observar um outro rapaz, com seus 20 anos, distribuindo ingressos na praça de alimentação do mesmo shopping.

“O senhor está distribuindo os ingressos aqui desde que horas?”

“Faz umas quatro horas, mais ou menos.”

Junto ao ingresso, recebi também um lenço branco com alguns escritos em azul, para “enxugar as lágrimas”.

(Foto: Reprodução)
  • E assim, com o ingresso e o pano em mãos, fui ao cinema.

Por curiosidade, verifiquei pela internet a lotação das salas de cinema da cidade para o filme. Na quinta-feira (12), todas as salas estavam praticamente lotadas – inclusive a da sessão para a qual iria. As que não estavam cheias tinham um padrão um tanto quanto estranho de compra, como no Londrina Norte Shopping, onde as duas sessões do dia tinham exatamente os mesmos assentos ocupados – pelo menos na teoria. O mesmo se repetiu nesta sexta-feira (13).

Ao chegar na sala, com a promessa de ver as mais de 260 poltronas ocupadas, o já esperado: apenas 11 pessoas assistiam ao filme – contando comigo. Na bilheteria, perguntei à atendente se as sessões de “Nada a Perder” estavam lotando. “Não, nenhuma.”

O Filme

“Nada a Perder – Contra Tudo. Por Todos” é uma cinebiografia do bispo evangélico Edir Macedo (interpretado por Petrônio Gontijo), empresário fundador e líder espiritual da Igreja Universal do Reino de Deus, além de proprietário da emissora de TV Record. O longa é baseado em uma trilogia de livros de mesmo nome, que conta a história de Macedo, recheada com momentos de turbulência enquanto ele é perseguido por sua convicção.

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O filme tem produção da própria Record, com financiamento da Igreja Universal. Desde que estreou, na última quinta-feira de março, o filme lidera as bilheterias do país – até agora, é a maior do cinema nacional em 2018. Só em pré-venda, mais de 4 milhões de ingressos foram vendidos, segundo dados do jornal “O Globo”, um recorde no Brasil. Só no último final de semana (dias 7 e 8), “Nada a Perder” lucrou quase R$ 14 milhões e meio, segundo o site “Filme B”. Mais do que o dobro do segundo colocado, “Um Lugar Silencioso”, com R$ 5,8 milhões.

Para os padrões nacionais, o orçamento do filme assusta: R$ 40 milhões, incluindo o custo da sequência, prevista para 2019. Para fins comparativos, uma produção de médio porte no Brasil gasta em torno de R$ 5 milhões. O diretor do filme é Alexandre Avancini, também responsável por “Os Dez Mandamentos” e por boa parte das novelas da Record. Esse estilo televisivo e novelesco se mantêm por todo o filme.

O que poderia ser um filme interessante sobre uma figura controversa acaba sendo um emaranhado de clichês mal amarrados em tom de novela. Acompanhamos Edir Macedo ao longo de algumas décadas, a começar pela infância, quando sofria bullying pela deficiência que carrega nas mãos. Aliás, o filme todo segue essa fórmula.

O bispo sofre algum tipo de adversidade – geralmente é prejudicado por alguém – e precisa superá-la, enfrentando antagonistas maquiavélicos e sem nenhuma profundidade. Macedo é o único a mostrar qualquer tipo de compaixão durante o filme, que explicita em diversos momentos a missão de vida do pastor: salvar almas para Deus.

No filme, Edir Macedo é um homem sem defeitos, dotado de boa oratória, sabedoria e determinação. E seus pensamentos são apresentados como verdade indiscutível. Há, por exemplo, uma cena de claro deboche às religiões de origem africana. A Igreja Católica também aparece como vilã – o padre interpretado por Eduardo Galvão é completamente caricato e mal intencionado.

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Com muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, quase nada é bem desenvolvido, denunciando a superficialidade do roteiro. A relação do bispo com R. R. Soares – pastor da Igreja Internacional e cunhado de Macedo – é muito mal explorada, por exemplo. Apesar de serem duas figuras interessantes, Soares não passa de mais um dos antagonistas do filme.

Existem várias tentativas de dramatização que beiram o ridículo, apelando para diálogos e situações clichês, frases de efeito, trilha sonora emotiva e quase nenhum desenvolvimento prévio. Um dos momentos que deveriam ser mais impactantes durante o filme é um exorcismo realizado por Macedo, mas que se resume a apenas uma cena curta e fim.

A prisão de Edir Macedo é um dos pontos principais do filme. Ele é apresentado como vítima do plano de um padre da Igreja Católica, de um político e de um juiz, todos extremamente caricatos e sem nenhum desenvolvimento. O bispo é preso em uma cena digna de qualquer filme genérico de ação, com várias viaturas e dezenas de policiais – com armas em punho – cercando o carro no qual estava. Uma cena que, verdade ou não, passa pouca credibilidade em tela.

Edir é preso no momento em que a Universal está no auge de sua popularidade, dando a entender que ele teria sido detido devido ao sucesso de suas palavras e não por qualquer enriquecimento ilícito ou outro problema com a Justiça. Aliás, a questão financeira da igreja nunca é explorada. De onde vem o dinheiro para a compra da Record e para a construção dos templos? Nunca é falado, mas podemos concluir que vem do dízimo.

(Foto: Reprodução)

Os diálogos são artificiais e as atuações, limitadas e estereotipadas, bem ao estilo “novela da Record”. Na pele de Edir Macedo, Petrônio Gontijo também não consegue ir além de uma atuação exagerada e pouco crível, apesar de melhor do que o restante do elenco.

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Em busca de tentar emocionar, Avancini entra em uma sucessão de clichês, com trilha sonora excessiva, uso de câmera lenta e cortes em fade-out, vilões envoltos em trevas etc.

Os R$ 40 milhões investidos são vistos em tela, com uma ótima reconstituição do Brasil à época representada, entre os anos 60 e 90. Segundo o diretor, cerca de 8.000 figurantes foram contratadas para o filme, o que ajuda e muito a representar a grandeza da Universal.

Em suma, “Nada a Perder” é um filme feito para os fiéis, já que dificilmente quem não tem relação com a Universal – ou com o cristianismo – vai conseguir se identificar. Funciona como uma forma de sustentar a marca de Edir Macedo e de sua igreja. Ao final, Edir Macedo em pessoa aparece na tela para fazer uma oração e abençoar o lencinho que recebi.

Assista ao trailer:

IMDb

No começo deste mês, “Nada a Perder” estava com nota 10 no IMDb (Internet Movie Database, Base de Dados de Filmes na Internet, em tradução literal), o maior banco de dados de filmes do mundo. Assim, o filme aparecia entre as produções mais bem avaliadas da história, ao lado de clássicos como “O Poderoso Chefão”. A nota é dada pelos próprios usuários.

Até esta sexta-feira (13), o filme conta com mais de 19 mil avaliações, mas a “nota perfeita” deu lugar a um 7,6, já que algumas críticas foram excluídas depois de denúncias de que robôs estariam sendo usados para avaliar a produção.

Com informações bond.com.br